A grande geringonça

Cena 1

Faltam cinco páginas para o final.

O bandido, um certo Jacques Bouchet, decide matar os mocinhos:

— Why are we keeping the hostages alive anyway? We’re gonna have to shoot them sooner or later. All them, except the professor’s daughter, I mean.

Você vira a página e a história continua, emocionante:

“The battery is low. Please recharge as soon as possible. Sorry for the inconvenience”.

Bom demais.

Cena 2

Finalmente a fórmula que estava procurando! Entusiasmado, você estica o braço a apanha um pedaço de papel e um lápis para exercitá-la. A manga da blusa enrosca na borda do livro e ele vai ao chão. Você o apanha. Todo o lado direito da página apagou-se – e com ela a metade da equação.

Cena 3

Manhã no Ibirapuera. Sento-me à sombra de uma árvore antecipando o prazer da leitura. Nem bem viro a primeira página quando o livro desaparece das minhas mãos. Passo o resto da manhã na delegacia fazendo o boletim de ocorrência sem o qual o seguro não me reembolsa o prejuízo. Se é que o farão. É o terceiro livro que um trombadinha me rouba este ano.

 

Cena 4

Largo meu jornal na espreguiçadeira e vou dar um mergulho na piscina. O jornaleiro garantiu que a tinta é à prova de respingos, então não me preocupo. Volto meia hora depois e o abro para ler a seção de esportes. Estão em branco. Aliás, todas as páginas estão em branco. Reclamo com o jornaleiro que me diz que o tal jornal não funciona acima de 35 graus Celsius.

Cena 5

Estou viajando e decido comprar um livro no destino. Meu livreiro habitual me garantiu que há uma filial na cidade, numa tal de Rua 3G. Chegando descubro que não existe nenhuma rua com esse nome por lá.

Cena 6

Compro um livro novo. Estou na metade quando escuto no rádio que o livreiro que me vendeu — um sujeito de nome Bezos — havia roubado os direitos autorais do livro e que eles seriam todos recolhidos. Ao chegar em casa descubro que os capangas do Senhor Bezos haviam estado lá na minha ausência e, sem ao menos me avisar (e sem um mandado) haviam vasculhado minha biblioteca e subtraído o tal livro. Apenas para livrar o rabo do chefe de um processo.

***

Esses são os argumentos mais comuns contra livros eletrônicos. Todos válidos. E eu sou um retrógrado que, por certo, jamais se adaptará aos tais e-books, certo?

Errado.

Não tenho nada contra e-books. Nem acho que livros de papel vão desaparecer: eles são mais práticos, seguros e simples de usar. Além de seu uso ser um paradigma difícil de quebrar. O mais provável é que de alguma forma convivam os dois no futuro.

Mas vou esperar mais um pouco antes de entrar na fila para comprar um Kindle.

Não por causa da tecnologia (antiquada), da falta de informação por parte do fabricante (o manual não informa o grau de estanqueidade, resistência a impactos e limites de umidade) nem do preço (salgado, embora não proibitivo).

Para mim o maior impedimento é a falta de um padrão para os arquivos. Um Kindle só funciona com arquivos da Amazon. E a Amazon não licenciou o seu formato para ninguém. E eu não pretendo virar um frequês cativo do Sr. Jeff Bezos. Nem de uma livraria que também vende porcas e parafusos.

Puro preconceito meu.