A física e as dúvidas

Desculpe pelo textão. Tenho a física teórica por hobby há décadas e, por isso, não posso ver defunto sem chorar.

Vamos por partes.

1) Primeiro, deve-se entender que a editoria científica no Brasil é uma lástima, e a matéria de Bruno Rizzato não é exceção. Se você comparar com o original do Daily Mail, cujo artigo foi (mal) traduzido pelo jornalista do portal R7, verá o que quero dizer. No trabalho original, o Professor Das deixa claro tratar-se de uma especulação. Em ciência o termo “especulação” nada tem de errado ou não meritório. É apenas uma das maneiras de dizer “conjectura”, uma das fases que antecedem uma hipótese.

Aliás, a notícia é velha. Ela foi apresentada ao mundo científico em 2014 e a própria notícia do Daily Mail é de fevereiro de 2015.

2) Sobre o infinito: Ninguém, até agora, conseguiu conquistar o Santo Graal da física moderna, que é a unificação da relatividade com a quântica. E isso impede o entendimento completo do que aconteceu no início do universo, e antes dele. E quando o Prof. Das diz que essa unificação é frustrada porque “a matemática e a teoria do Big Bang, em si, se anulam por conta dos infinitos” ele não está manifestando qualquer receio com relação ao infinito. Os físicos são os cientistas que mais lidam com o infinito. Ele usou o plural (infinitos) porque está se referindo às equações que tropeçam em divisões por zero. Como aprendemos na escola é impossível efetuar uma divisão por zero porque a resposta é o infinito, e não uma grandeza qualquer. E em matemática (não na física!), infinitos não tem significado. Demonstram apenas que a equação está errada no sentido de que não estão refletindo, afinal, um modelo da realidade.

3) Se você desconfia do Big Bang está em excelente companhia. Tanto os físicos – inclusive prêmios Nobel – desconfiaram dela que, na verdade, ela já foi substituída pela teoria do universo inflacionário. Cujos indícios, aliás, foram materialmente descobertos ano passado, embora o universo inflacionário date dos anos 70. Mas mesmo a teoria inflacionária parte de uma singularidade, um ponto no espaço que se expandiu. Os físicos costumam brincar que trata-se de um Big sem o Bang. E isso há anos.

4) Há uma diferença entre os físicos e as teorias religiosas, baseadas na fé e na tradição. Enquanto religiosos explicam de uma forma ou de outra o que existia antes do universo conhecido, os físicos simplesmente declaram não saber. E é assim que tem que ser. Se a ciência não consegue explicar, ela sabe que deve se esforçar mais. Porém jamais dirá qualquer coisa com base em uma coisa que não existe em ciência: a fé. Note-se que isso não quer dizer que não existem cientistas sem uma fé. A maioria tem. Mas não misturam as coisas.

Assim, os físicos não ignoram o que aconteceu antes do início do Universo. Eles não são malucos. Eles simplesmente ainda não sabem. Só isso.

5) Teorias cosmológicas sem o Big Bang não são novidade e fazem parte do rol de investigações da física de ponta há muitos anos. Algumas são muito interessantes, como a que investiga a hipótese da existência de um universo paralelo, afastado de nós por uma pequena fração de tempo-espaço (da ordem de bilionésimos de milímetro). Segundo essa teoria esses dois mundos se chocariam periodicamente a intervalos de tempo bastante grandes (medidos em bilhões de anos) e, quando isso acontecesse um evento tremendamente energético daria início a um novo ciclo. Segundo essa teoria, isso sempre aconteceu (sem um começo!) e sempre acontecerá. O universo se renovando perpetuamente. Eternamente. Infinitamente. É bonito, até poético, mas encaixa-se perfeitamente com o que sabemos hoje. Explica até os ecos do Big Bang e da inflação do universo tal como detectamos hoje. Ou seja: se demonstrado matematicamente não estaria em conflito com o que já observamos do cosmo.

Se um dia você quiser correr o risco de se engraçar com a física em qualquer de seus aspectos, há um bom número de livros acessíveis a nós, leigos e amadores. Alguns são francamente deliciosos. Outros beiram a raia do misticismo sem abandonar o rigor científico.

Não sei se você lê o inglês, por isso posso recomendar livros traduzidos. Não se preocupe: se você não os ler vou apenas entender que você é uma pessoa saudavelmente normal.

O livro que mais se aproxima (até perigosamente) do pensamento místico chama-se O Universo Autoconsciente, de Amit Goswami, um físico hindu radicado no Canadá.

Se quiser saber mais sobre física moderna de maneira bem gostosa e simples leia um autor chamado Brian Greene. Um dos livros que tratam do que eu descrevi (inclusive o choque de universos paralelos) chama-se O Tecido do Cosmo. É dele também o famoso O Universo Elegante.

Ou, se quiser uma recomendação sobre qualquer outro nicho da física me diga. Posso te indicar alguma coisa, inclusive no Youtube.