A culpa é da Dora

A culpa é da Dora

Minha analista disse que tenho que ser mais assertivo. Como minhas sessões com ela não dispõem de closed caption, fiquei num primeiro momento sem entender o que ela queria dizer de fato. Se Dora pronunciara assertividade com dois esses ou se acabava de criar uma palavra nova com a letra cê.
Desse jeito:

Acertividade (s.f.): a arte de acertar mais do que errar na vida.

Descobri que ela não havia criado nenhum neologismo. Até porque um terapeuta que me desse um conselho desses (com cê), não valeria o arroz que come.
Ser assertivo significa falar assim: na lata. Sem volteios, sem dourar a pílula, usando o verbo como uma flecha precisamente atirada no coração ou na mente do interlocutor, conforme o caso. Admite-se, quando muito, um prólogo simpático que anestesie a vítima antes de desfechar o golpe sempre seco da Verdade Segundo Eu Mesmo, de inocular o veneno da honestidade.

A falta de assertividade, contudo, está por toda a parte. O que seria do mundo sem a desassertividade? Veja os Dez Mandamentos: fosse Deus assertivo e teríamos uma única Lei: “Não farás merda!” E se todos os articulistas do Estadão resolvessem seguir o conselho da minha analista, não haveria versinhos de Camões em número suficiente para preencher os claros em uma única edição de segunda-feira.

E quando se foi desassertivo por mais de cinco décadas então, a coisa fica preta. Como livrar-se do doce e verborrágico prolegômeno? Como deixar de acariciar a incoerência ou fornicar despudoradamente com sua irmã, a incongruência? Como trocar as deliciosas curvas da lógica frouxa pela retidão dos trilhos da honestidade intelectual?

Daí a ideia de um blog. Me disseram que nele a gente pode expressar as próprias idéias sem que ninguém as leia. A não ser os amigos mais chegados e os familiares ao alcance da mão

Assim, não só eu como outros desacertivos (sic) poderão exercitar sua assertividade sem medo. Se você não gostar das opiniões, culpe a Dora. Afinal, transferência e projeção servem pra isso mesmo.