Para quem não gosta de matemática

Wassily Kandinsky – Composição VIII

Você usa a matemática do mesmo jeito que os egípcios, há quatro mil anos. Mesmo tendo sido uma grande civilização, os egípcios antigos não eram grandes matemáticos. Eles sabiam fazer contas, e só.

Eles calculavam a área dos terrenos e o volume das pirâmides. Contabilizavam o tesouro dos faraós e os estoques de comida e material de construção. O que significa que usavam a geometria e a aritmética com propósitos práticos e com grande eficácia. Mas era só isso. Nunca desenvolveram uma geometria avançada, ou uma álgebra minimamente sofisticada.
Em nosso dia-a-dia, não precisamos de mais que o conhecimento equivalente para calcular o troco do supermercado, conciliar nossa conta bancária ou estimar quanta tinta precisamos para pintar a sala.

Os gregos foram diferentes. Construtores mais modestos, mas pensadores extraordinários, eles deram um passo à frente. Elevaram a geometria a tal altura que, até hoje, usamos os mesmos teoremas criados por eles para descrever o mundo visível. Para os gregos, a matemática não era um mero instrumento para agrimensores, engenheiros e contadores. Compreenderam que poderiam descrever o universo através da matemática, divinizaram a geometria, enobreceram o pensamento lógico.

A matemática e sua lógica tornaram-se a ferramenta dos filósofos.

Muitos séculos se passaram até que Galileu Galilei desse mais um gigantesco passo. Ele descobriu, e provou, que a matemática poderia ser usada não apenas para descrever fenômenos naturais, mas também para prevê-los. Primeiro, ele descobriu que a queda de um corpo obedecia a uma fórmula precisa, imutável, simples. E depois teve a ousadia de dizer que poderia prever o que aconteceria com esse corpo se jogado para cima. Que altura atingiria, que trajetória descreveria, quanto tempo gastaria no trajeto. E que isso valia para qualquer corpo, lançado em qualquer força, em qualquer ângulo.

Galileu descobriu a previsibilidade científica, e a matemática como seu instrumento. E a matemática tornou-se a ferramenta dos videntes.

Depois de Galileu, a humanidade descobriu uma coisa maravilhosa: que a natureza podia ser modelada com fórmulas e equações, permitindo que todo o universo pudesse ser desenhado e entendido por antecipação. Foi assim que Newton modelou o grande relógio cósmico ao descrever (com fórmulas matemáticas), o balé de todo e qualquer corpo celeste com precisão.

Galileu também lançou a semente de uma idéia genial: a de que a geometria do gregos, feita de axiomas e teoremas aprendidos na escola — a chamada geometria de Euclides — não era a única existente no universo. Com o passar dos séculos, os matemáticos lançaram a idéia de que poderiam existir mundos nos quais a geometria Euclidiana não seria aplicável. Nessas novas geometrias, a soma dos ângulos de um triângulo não seria necessariamente de 180 graus. Nem a soma dos quadrados dos catetos seria igual ao quadrado da hipotenusa, como nos ensinou Pitágoras.

Essas geometrias não Euclidianas ficaram como uma curiosidade matemática, uma especulação, até Einstein. O pai da Relatividade encontrou um mundo real, palpável, onde a geometria de Euclides não vigorava mais: o nosso mundo. É isso mesmo, caro leitor: a geometria que você aprendeu na escola só funciona em escala muito pequena, na escala humana. Quando se considera a imensidão do universo, ela falha miseravelmente. E a matemática tornou-se, finalmente, a ferramenta dos mágicos e dos sonhadores.

E por que estou dizendo tudo isso? Porque me ocorreu que esta talvez seja a maneira mais sensata de se ensinar matemática nas escolas. Há um romance, uma saga, um conto de fadas por trás do desenvolvimento da matemática. Talvez a maneira de fazer com que crianças, adolescentes e adultos se interessem mais pela matemática seja explicando o que ela realmente é, antes de obrigar as pessoas a decorar fórmulas de Baskara ou métodos de integração.Tivesse eu tempo e espaço, e aceitaria o desafio de ensinar essa matemática. Mostrar o que de fato significa, e quão emocionante é compreende-la. Não as suas fórmulas, entenda bem, mas a sua natureza. Tenho certeza de que você passaria a gostar dela.

De qualquer forma, permita-me recomendar uma leitura imperdível, para quem gosta de estórias de suspense: o livro chama-se O Último Teorema de Fermat. O autor é Simon Singh, e a editora a Record. Custa R$ 40,90 na Livraria Cultura, e pode ser comprado pela Internet. Não é um livro de matemática.

Se você lê inglês e quer aprender matemática do jeito que deveria ser ensinada nas escolas, pode ler também Mathematics for the Nonmathematician, de Morris Kline, editora Dover, por R$46,49 no mesmo endereço.